EMBASAMENTO TEORICO DO CURSO DE CONSTELAÇÃO FAMILIAR DE CAPIVARI NA ADUSMEC
Da Psicanálise, filha da Psiquiatria, advém historicamente
os tratamentos de saúde mental e terapias integrativas do mundo moderno.
A saúde mental é um drama que se arrasta ao longo dos
milênios na humanidade. Os afetos e desafetos, a luta pela sobrevivência, a
contingente natureza de ser finito e frágil, condiciona os seres debaixo do sol, seja ele
humano, animal, planta, água, vegetal, flores, frutos ou mineral.
Dizem que a natureza em depredação, chora, geme feito o
porco na hora do abate, como o ser humano em seu instante de partida. Antes
disso, para todos, constitui um mar incontável de prazeres e dores.
Ao longo dos tempos de trabalho como psicanalista clínico em
atividade, observando mais ainda as famílias
no dia a dia rotineiro, tenho anotado 4 benefícios da Psicanálise para o
controle emocional.
1º
Desenvolve o autoconhecimento.
O autoconhecimento é importantíssimo para nosso
desenvolvimento pessoal e pode ajudar muito a lidar com as emoções.
2º
Fornece a oportunidade de se reinventar.
3º
Ensina a lidar com as emoções.
4º
Promove uma boa saúde mental.
1. O que é a psicanálise?
Embora não haja um consenso sobre a gênese exata do conceito dentro do contexto histórico, coube a Sigmund Freud a titulação de fundador da Psicanálise na passagem do século XIX para o século XX. Seus feitos, conceitos e ideias estão presentes nas discussões do campo psicanalítico até hoje, o que trouxe profunda influência para o desenvolvimento de inúmeras linhas de estudos desde sua concepção.
Conceitualmente o termo psicanálise é utilizado para
se referir a um constructo teórico baseado nos preceitos da hermenêutica (campo
de estudo, que tem por referência, a explicação que compreende a interpretação
de sentidos implícitos, ou seja, possui um caráter investigativo que busca a
interpretação do que está além do objeto).
Nesse sentido, a psicanálise pode ser considerada um
campo teórico e um
método de investigação e interpretação, que culminam
em uma prática clínica dotada de técnicas específicas.
Enquanto teoria, pode ser caracterizada por um
conjunto de conhecimentos
sistematizados sobre a estrutura e o funcionamento
da vida psíquica, bem como sua repercussão na vida do sujeito. Como método
investigativo, busca a interpretação de conteúdos que são ocultos e/ou
inacessíveis às manifestações e ações do indivíduo em sua relação com o meio.
Segundo Laplanche e Pontalis (1996), essa disciplina
fundada por Freud pode ser dividida em três níveis:
● a) Um método de investigação que consiste
essencialmente em evidenciar o significado inconsciente das palavras, ações,
das produções imaginárias (sonhos, fantasias, delírios) de um sujeito. Este
método baseia-se principalmente nas associações livres do sujeito, que são a
garantia da
validade da interpretação. A interpretação
psicanalítica pode estender-se a
produções humanas para as quais não se dispõe de
associações livres.
● b) Um método psicoterápico baseado nesta
investigação e o especificado pela interpretação controlada da resistência, da
transferência e do desejo. O emprego da psicanálise como sinônimo de tratamento
psicanalítico está ligado a este sentido; exemplo: começar uma psicanálise (ou
uma análise).
● c) Um conjunto de teorias psicanalíticas e
psicopatológicas em que são
sistematizados os dados introduzidos pelo método
psicanalítico de investigação e de tratamento.
À prática profissional, portanto, coube a alcunha de
análise, ou seja, uma forma de tratamento que se utiliza de técnicas
investigativas específicas para o tratamento daqueles que buscam seu
autoconhecimento e/ou resoluções e entendimentos das perturbações que assolam a
psique humana.
Ou, nas palavras de Freud (1922), “chamamos de
psicanálise ao trabalho
pelo qual levamos à consciência do doente o psíquico
recalcado nele”.
No artigo "QUE TIPO DE CIÊNCIA É, AFINAL, A
PSICANÁLISE", o autor explica que Freud teoriza o campo psicanalítico em
dois níveis, explicando que, em um deles, há uma ideia de generalidade.
Descreve-se o inconsciente e suas implicações dentro do aparelho psíquico: os
conflitos e angústias provenientes das pulsões e seus destinos na sua relação
com a satisfação (ou não) do desejo.
INDICAÇÃO DE LEITURA:
1.1 - Que tipo de ciência é, afinal, a Psicanálise?
(MEZAN, 2001) [40 páginas]
2. A gênese da psicanálise e o percurso inicial de
Sigmund Freud
Toda a conceituação de base da psicanálise como a
conhecemos se remete,
indiscutivelmente, ao final do século XIX, por meio
de Freud e seus tutores e colaboradores.
Portanto, é necessário que se remonte a trajetória
do fundador da psicanálise, considerando os personagens históricos que o ajudou
no desenvolvimento das ideias iniciais de sua ciência.
Médico de formação pela Universidade de Viena, em
1881, Freud se especializa em psiquiatria, mostrando-se um renomado
neurologista. E, em meio a sua clínica médica, passa a se deparar com pacientes
acometidos por “problemas nervosos”, o que lhe suscitava certos
questionamentos, visto a “limitação” do tratamento convencional oriundo da
medicina.
Com isso, entre 1885 e 1886, Freud vai à Paris para
realizar um estágio com o neurologista francês Jean-Martin Charcot, que parecia
demonstrar sucesso no tratamento de sintomas de doenças mentais por meio do uso
da hipnose.
Para Charcot esses pacientes, ditos histéricos, eram
acometidos por distúrbios mentais causados por anormalidade no sistema nervoso,
uma ideia que influenciou Freud a pensar novas possibilidades de tratamento.
De volta à Viena, Freud passa a tratar seus
pacientes com sintomas de
distúrbios nervosos através da sugestão hipnótica.
Nessa técnica, o médico induz uma alteração no estado de consciência do
paciente e, então, realiza uma investigação entre as conexões e condutas do
paciente que poderiam estabelecer qualquer relação com o sintoma apresentado.
Nesse estado, percebe-se que, por meio de sugestão
do médico, é possível
provocar o aparecimento e o desaparecimento desse e
outros sintomas físicos.
Contudo, Freud se vê ainda imaturo em sua técnica e,
então, busca entre 1893 e 1896, aliar-se ao respeitado médico Josef Breuer, que
descobrira ser possível reduzir os sintomas da doença mental apenas pedindo
para que os pacientes descrevessem suas fantasias e alucinações.
Com a utilização das técnicas de hipnose era
possível acessar mais facilmente as lembranças traumáticas e, ao dar voz a
esses pensamentos, as memórias ocultas eram trazidas ao nível consciente, o que
possibilitava o desaparecimento do sintoma
(COLLIN et al., 2012).
Emblematicamente essa ideias foram possíveis de
serem desenvolvidas através do tratamento de uma paciente conhecida como Anna
O., a primeira experiência de sucesso por esse sistema de tratamento
psicoterápico.
Desse modo, Freud e Breuer passam a trabalhar
juntos, desenvolvendo e
popularizando uma técnica de tratamento que
possibilitava a liberação de afetos e emoções ligadas aos acontecimentos traumáticos
do passado por meio da rememoração das cenas vivenciadas, o que culminava no
desaparecimento do sintoma.
A essa técnica de revivenciar cenas traumáticas do
passado deu-se o nome de método catártico. Toda essa experiência possibilitou
a publicação conjunta da obra Estudos sobre a histeria (1893-1895).
Em 1896, Freud emprega, pela primeira vez, o termo
Psicanálise, com o intuito de estudar os componentes que formam a psique.
Nesse sentido, fragmentar o discurso/pensamento do paciente para poder captar
os conteúdos latentes e, a partir daí, destrinchar melhor os significados e
implicações presentes na fala do paciente.
À medida que a técnica se avançava, alguns pontos de
discordância apareciam entre Freud e Breuer, sobretudo na ênfase que Freud estabelecia
entre as memórias do paciente e as origens e conteúdos sexuais da infância.
Desse modo, em 1897 Breuer rompe com Freud, que
segue desenvolvendo as ideias e técnicas da psicanálise, abandonando a hipnose
e utilizando a técnica de concentração, na qual a rememoração era realizada
por meio da conversação normal, dando voz ao paciente de forma não direcionada
(as escolhas aparentemente casuais dos temas livremente trazidos pelo paciente
poderiam encaminhar para revelações sobre seu inconsciente). Esta forma seria a
precursora do que Freud, depois, denominaria associação livre.
“Quando, em nossa primeira entrevista, eu perguntava
a meus pacientes se
recordavam do que tinha originalmente ocasionado o
sintoma em questão, em alguns casos eles diziam não saber nada a esse respeito,
enquanto, em outros, traziam à baila algo que descreviam como uma lembrança
obscura e não conseguiam prosseguir. [...]
eu me tornava insistente - quando lhes asseguravam
que eles efetivamente sabiam, que aquilo lhes viria a mente - então, nos
primeiros casos, algo de fato lhes ocorria, e nos outros a lembrança avançava
mais um pouco. Depois disso eu ficava ainda mais insistente: dizia aos
pacientes que se deitassem e fechassem deliberadamente os olhos a fim de se “concentrarem”—o
que tinha pelo menos alguma semelhança com a
hipnose. Verifiquei então que, sem nenhuma hipnose,
surgiam novas lembranças que recuavam ainda mais no passado e que provavelmente
se relacionavam com nosso tema. Experiências como essas fizeram-me pensar que seria
de fato possível trazer à luz, por mera insistência, os grupos patogênicos de
representações que, afinal de contas, por certo estavam presentes” (FREUD,
1996, p. 282-283).
Toda essa trajetória permitiu que Freud
desenvolvesse e aprimorasse sua
técnica psicanalítica. Desde a hipnose, passando
pelo método catártico e, depois, por uma prática provisória conhecida como
“técnica da pressão”, na qual Freud pressionava a testa dos pacientes na
tentativa de trazer ao consciente os conteúdos inconscientes (método logo
abandonado por Freud, por identificar resistências e defesas por parte do
paciente).
Freud percebeu que o ato mecânico por si só
representava uma forma de alívio:
fazia o sintoma se deslocar de lugar (ir para o
sistema da fala/escuta). Mas, além disso, havia o mais importante: refletir
sobre o simbólico trazido nesta fala, como chave de entrada para o
inconsciente.
Eis que surge para Freud a ideia da técnica da
associação livre, na qual o
indivíduo trazia para a sessão seus conteúdos, sem
qualquer restrição ou julgamento e, a partir desses, Freud os investigava,
analisava e interpretava, graças à atenção flutuante (conceito empregado pelo
autor para a técnica da escuta), na tentativa de relacionar a fala aos
conteúdos submersos no inconsciente.
3. Um olhar à histeria
Em virtude do contexto histórico apresentado até
aqui, a histeria acaba
ganhando uma determinada centralidade nos estudos
iniciais da psicanálise.
Afinal, foram através dessas queixas clínicas que o
tratamento desenvolvido por Freud, e influenciados por seus pares, pode seguir
evoluindo dentro do arcabouço teórico e prático da psicanálise.
Nesse sentido, cabe-se reservar um espaço importante
dentro da formação para o entendimento dessa patologia, sua etiologia, desdobramentos, formas de intervenção e
interpretação, além do tratamento.
Pode se dizer que o livro Estudos sobre a histeria
(1893-1895) publicando
conjuntamente entre Freud e Breuer, foi à obra
fundadora da psicanálise, embora os escritos contidos em A interpretação dos
sonhos (1900) sejam considerados, por Freud, como sendo o grande livro de
fundação da psicanálise.
Assim, em Estudos, os autores discutem e introduzem
a ideia sobre a doença
“(...) como sendo originária de uma fonte da qual os
pacientes relutam em falar, ou mesmo não conseguem discernir sua origem. Tal
origem seria encontrada em um trauma psíquico ocorrido na infância, em que uma
representação atrelada a um afeto aflitivo, teria sido isolada do circuito consciente
de ideias, sendo o afeto dissociado desta e descarregado no corpo”. (REVISTA
CIENTIFICA ELETRÔNICA DE
PSICOLOGIA, 2009).
Essa descarga referida está relacionada à formação
do sintoma que, em função de um trauma infantil, apresentaria um correspondente
na ordem do simbólico, separando o afeto (o evento traumático do passado) de
sua representação (os sintomas e repressões/bloqueios atuais).
Desse modo, a repressão dos afetos ligados à
realização de um desejo
provocaria um impedimento que, em virtude da
dificuldade de elaboração psíquica em atribuir um sentido à experiência,
manifestaria o sintoma no plano somático (corpo), caracterizando o conceito de
conversão histérica.
Nesse sentido, apresenta-se a ideia de recalcamento
(barreira), que isolaria as representações desvinculadas dos afetos em uma
“segunda consciência”, subordinada à consciência normal, o que provocaria,
dentro de uma cadeia associativa, a transformação dos afetos em sintomas
somáticos, daí a denominação conversão.
Sendo assim, a utilização do método catártico como
forma de tratamento se
mostrava eficiente, uma vez que a rememoração das
representações isoladas do afeto (evento traumático) era realizada, sendo
possível a descarga desse afeto, causando alívio e eliminação do sintoma.
A esse movimento de descarregamento deu-se o nome de
Ab-reação que,
segundo Laplanche e Pontalis (1996), consistiria em
um processo de descarga emocional que, liberando o afeto ligado à lembrança de
um trauma, anule seus efeitos patogênicos. Seria uma forma encontrada pela
psique para recalcar (esconder do consciente) a dor constante de rememorar o
trauma.
4. Conceitos fundamentais da psicanálise freudiana
“O eu não é mais senhor em sua própria casa”.
(Sigmund Freud)
Os escritos de Freud certamente mobilizaram a
sociedade de sua época na
direção da ruptura de paradigmas tão estruturados
quanto o próprio contexto histórico vivido na transição entre os séculos XIX e
XX. Pelas palavras do próprio autor, seus achados constituiriam a terceira
ferida narcísica da humanidade:
● 1a Ferida: o centro do universo. Através dos
estudos de Nicolau Copérnico, pode-se ter o entendimento de que a Terra, e
simbolicamente o homem, não é o centro do universo, como se acreditava até
então.
● 2a Ferida: a evolução das espécies: Coube à
teoria evolução das espécies de Charles Darwin a responsabilidade pelo intenso
duelo ideológico entre
criacionistas e evolucionistas, colocando em questão
os dogmas da instituição religiosa cristã.
● 3a Ferida: o inconsciente e o indivíduo
“dividido”. Então, Sigmund Freud com a construção conceitual de inconsciente,
sugere que as ações do homem são fortemente influenciadas por uma instância
psíquica que foge ao entendimento racional e, que em si, apresentam
características primitivas, denominada inconsciente.
Nesse sentido, Freud dedica sua vida a desenvolver
uma teoria que buscasse compreender os mecanismos que estão por trás do
funcionamento da mente. A partir do desenvolvimento de sua técnica e da aplicação
clínica, o cientista passa a versar sobre conceitos e ideias que sustentariam
sua nova forma de tratar patologias da mente.
E, são exatamente esses conceitos fundamentais que
apresentaremos na
sequência desse Módulo.
5. O inconsciente e a primeira estrutura do aparelho
psíquico
Segundo Laplanche e Pontalis (1996), “se fosse
possível concentrar numa só palavra a descoberta freudiana, essa palavra seria
incontestavelmente o
inconsciente”. Não por acaso esses autores tocam na
importância desse conceito em como, de fato, a nominação por Freud desse termo
revolucionou o entendimento sobre a psique humana.
De modo geral o inconsciente é constituído por
conteúdos que não estão
presentes no nível consciente (ou seja, no nosso
racional e naquilo que sabemos que sabemos) e são, por censuras internas,
mantidos reprimidos.
Trata-se, portanto, de uma estrutura dentro aparelho
psíquico que dispõe de leis próprias, a exemplo da comunicação por imagens
mnêmicas (lembranças), dentro de uma rede de simbolização. Ou ainda, sua
atemporidade, ou seja, para o inconsciente não existe passado ou presente, nem
tão pouco a dualidade “sim ou não”.
O entendimento desse conceito possibilita a Freud à
organização do aparelho psíquico em três instâncias psíquicas, conforme
descreve em sua primeira tópica: o sistema Ics/Pcs/Cs.
● Inconsciente (Ics): Constituído por conteúdos
reprimidos e que não têm acesso direto ao sistema Pcs/Cs.
● Pré-consciente (Pcs): instância que mantém
conteúdos acessíveis ao nível
consciente, ou seja, disponibiliza os conteúdos, mas
não pertence à consciência no atual momento. Mantém parte de sua estrutura
ligada tanto Ics quando ao Cs.
● Consciente (Cs): Instância que se relaciona os
estímulos/informações
provenientes do mundo externo e do mundo interno. É
responsável pela
percepção, atenção e raciocínio.
6. Fases de desenvolvimento psicossexual
As investigações na prática clínica de Freud, bem
como sua estruturação
teórica, abordam, em grande parte, as causas e
funcionamentos das neuroses.
Segundo Laplanche e Pontalis (1996) a neurose pode
ser definida como
“afecção (doença) psicogênica em que os sintomas são
a expressão simbólica de um conflito psíquico que tem raízes na história
infantil do sujeito, e constitui compromissos entre o desejo e a defesa”.
Desse modo, por meio de seus estudos, Freud concebe
que a maioria dos
desejos reprimidos possuem referências nos conflitos
de ordem sexual,
vivenciados na tenra infância, na qual as
experiências traumáticas configuravam a origem dos sintomas atuais.
Esquema:
Traumas de ordem sexual na infância > Reprimidos
(recalque) > Sintomas atuais
Esse pensamento gera a ruptura de um paradigma na
época, uma vez que as
ideias relacionadas ao “sexual” estariam associadas
apenas à reprodução. Freud coloca o desenvolvimento sexual, desde o início da
vida, como parte fundamental da evolução psíquica da vida humana. E, a energia
associada aos instintos sexuais recebe, por Freud, o nome de libido.
Nesse sentido, o entendimento de uma evolução
psicossexual a partir do
nascimento e orientado pelo direcionamento da libido
passa pela busca do prazer no próprio corpo. Sendo assim, Freud postula fases
de desenvolvimento sexual, as quais têm o direcionamento dos instintos sexuais
a determinadas áreas do corpo e que promovem prazer (porém, um trauma pode
fazer com que o desenvolvimento psíquico “trave” em uma das fases):
● Fase oral: zona erotizada é a boca.
● Fase anal: zona erotizada é o ânus.
● Fase fálica: zona erotizada é o órgão genital.
● Período de latência: interesses sexuais são
sublimados, direcionados a outras áreas, culturais, sociais, etc.
● Fase genital: zona erotizada encontra-se externa
ao corpo.
É importante colocar que essas fases de
desenvolvimento não são lineares e/ou estanques, nem tão pouco acontecem em
períodos exatamente como a idade cronológica.
Há sim um entendimento de uma evolução de cada fase
dentro de uma zona
esperada, contudo longe de ser preconizada ou
descrita com total exatidão. Aliás, as consequências provenientes de cada fase
podem (e vão) deixar marcas permanentes no funcionamento psíquico do sujeito.
7. Complexo de Édipo
Um processo muito importante e marcante, e que
permeia essas fases de
desenvolvimento, é o complexo de Édipo. Trata-se de
um conceito tão complexo quanto à referência ao seu nome.
Sua origem tem referência no mito grego de Édipo, o
qual, em linhas gerais, é responsável (“sem saber”) por matar seu pai e
casar-se com sua mãe. “Sem saber”:
inconsciente (para Freud, o ato de Édipo
representaria uma pulsão de prazer / poder no ego infantil em formação).
Essa analogia descreve o comportamento infantil, a
nível simbólico, no qual o menino tem a mãe como objeto desejado, e seu pai
como seu rival. Desse modo, ele quer ser como o pai e ter sua mãe
(revivenciando a fase de proteção uterina ou mesmo a proteção substituta do
aleitamento, que, além da sobrevivência nutricional, oferecia-lhe o prazer dos
órgãos orais, muito sensíveis na fase inicial do desenvolvimento).
Caso o desenvolvimento ocorra de forma saudável, o
menino perceberá a
possibilidade da perda do amor do pai e, então,
desinvestirá a mãe como objeto de desejo, e passará a buscar outro objeto
desejado, podendo assim, ingressar no mundo cultural e social: desejar uma
carreira, um relacionamento afetivo externo etc.
Considerando a figura da menina, as figuras
parentais são invertidas, há o
desejo pelo pai e a competição com a mãe,
caracterizando o Édipo feminino ou, segundo o psicanalista Carl Jung, complexo
de Electra.
8. Conceitos fundamentais sobre o funcionamento
psíquico
Alguns conceitos são fundamentais para que se tenha
embasamento e
entendimento dos constructos teóricos de Sigmund
Freud. Para que possamos evoluir na compreensão da teoria, é fundamental que
algumas questões sejam postas.
A existência da pulsão na teoria freudiana pode ser
traduzida como um “(...)
representante psíquico das excitações provenientes
do interior do corpo” (ZIMERMAN,
1999). Ou seja, há uma tensão somática que busca sua
descarga por meio de um objeto. A pulsão pode ser pensada sobre quatro
aspectos:
● Fonte: parte corporal de onde advém o estímulo.
● Magnitude: quantidade energética (força) da
descarga.
● Finalidade: objetivo e/ou necessidade da busca
pela satisfação.
● Objeto: o qual ou pelo qual a pulsão atinge sua finalidade.
Freud ainda caracteriza a pulsão de acordo com o
entendimento do aparelho
psíquico, enunciando que é possível uma configuração
na qual,
“(...) as pulsões do ego (também denominadas como de
“autopreservação”, cujo
protótipo é o da “fome”) e as sexuais (ou de
“preservação da espécie”), sendo que,
após sucessivas modificações, mais precisamente a
partir do clássico trabalho Além do
princípio do prazer, de 1920, ele estabeleceu de
forma definitiva a dualidade de
Pulsões de Vida (ou Eros) e Pulsões de Morte (ou
Tânatos), que, em algum grau,
coexistem fundidos entre si”. (ZIMERMAN, 1999, p.77).
Outro importante entendimento é que o funcionamento
psíquico pode ser
pensado sobre três pontos de vista:
● Econômico: no que se refere à quantidade
energética que alimenta os
processos psíquicos.
● Tópico: entendimento de um conjunto de lugares,
ou seja, constituído de
sistemas diferenciados quanto à natureza e ao
funcionamento (Ics e Cs).
● Dinâmico: justamente por transmitir forças e
afetos dentro dos sistemas.
Ainda em relação ao funcionamento psíquico, a
percepção e/ou a relação com as experiências do mundo externo, e interno, pode
ser altamente perturbadora e desorganizadora.
Em função disso, a psique cria mecanismos para lidar
com essas moções
dolorosas, e assim proteger o aparelho psíquico
contra as diversas formas de sofrimento, em prol da sobrevivência. Criam-se,
assim, os mecanismos de defesas. Eis alguns dos mecanismos utilizados por
subjetividades neuróticas.
● Recalcamento: determinados conteúdos (produtos das
experiências vividas de modo desorganizador) são reprimidos ao nível
inconsciente, ficando limitados pela barreira do recalque.
● Formação reativa: na tentativa de proteção do ego
em virtude de uma
sinalização de desejo, o indivíduo age de maneira
oposta àquilo que deseja,
justamente para não confrontar-se com esse aspecto
que, a nível consciente,
pode ser fortemente atacado. Exemplo de alguma
pessoa extremamente doce, terna, quando na verdade esconde uma agressividade
muito grande, que busca inconscientemente compensar ou ocultar.
● Regressão: trata-se do retorno a vivenciar algum
ponto regresso que demonstra uma expressão mais primitiva, ou seja, determinada
reação que vai além das consequências esperadas. Isso ocorre devido ao fato de
que a motivação da regressão é acompanhada de um significado passado.
● Projeção: como nome diz, o indivíduo projeta seus
conteúdos que não são aceitáveis em si (de modo inconsciente) no mundo externo
e, em geral os ataca, sem perceber que aquelas questões são, de fato, suas.
Ex.: criticar nos outros comportamentos que o indivíduo quer esquecer que
também são seus.
● Racionalização: há a construção de um discurso
argumentativo puramente acional, na tentativa de lidar com as angústias que
assolam o ego. Ou seja, a toda ação que não é passível de explicação, coloca-se
uma justificativa com
uma tentativa de racionalização muito precisa que
valide o comportamento do indivíduo.
Como posto, essas defesas são encontradas em
sujeitos que possuem um
desenvolvimento egóico mais consistente,
considerando-se uma forma de
funcionamento neurótica. Em última instância,
sujeitos “saudáveis” lidam bem com as formas de defesa acima, que, quando
exageradas, configurariam-se neuroses.
Existem outros mecanismos mais arcaicos e que
remetem a um
desenvolvimento mais primitivo, portanto,
psicótico. Como por exemplo, a cisão, idealização,
identificação projetiva, entre outros mecanismos, que implicam em transtornos
mais sérios de identidade, via de regra resultados de eventos mais graves da
infância e que os mecanismos tradicionais de defesa não conseguiriam dar conta, precisando por vezes o indivíduos se
desmembrar em dois para conseguir suportar a dor (como no caso de transtornos
de natureza esquizofrênica).
9. A segunda estrutura (ou tópica) do aparelho
psíquico
Com o avançar de seus estudos e de sua clínica,
Freud propõe uma
reestruturação do aparelho psíquico, implicando em
uma dinâmica de funcionamento diferente daquela proposta em sua primeira tópica
(Cs, Pcs, Ics). Apresenta-se, portanto, os conceitos de id, ego e superego.
● ID: instância psíquica mais profunda e vasta, a
qual contém reservada a energia psíquica, ou seja, as pulsões que, aqui, se
configuram regidas pelo princípio do prazer, em busca da satisfação do desejo,
alheios à realidade e à moral.
● EGO: instância psíquica que tem como principal
função buscar um equilíbrio entre as descargas de excitações. Orientado pelo
princípio da realidade, o ego é um regulador que busca atender os desejos,
considerando as condições objetivas da realidade. Portanto, situa-se entre a
satisfação do id e as impossibilidades advindas do superego. Além disso, atua
como um supervisor dos processos psíquicos, evitando um sofrimento psíquico
exacerbado que leve à desorganização, a exemplo das censuras presentes nos
sonhos.
● SUPEREGO: instância psíquica que busca a
regulação moral condicionada pelas exigências sociais e culturais. Surge com a
internalização de conteúdos como limitações, proibições e autoridade, em geral
a partir da relação com os pais.
INDICAÇÕES DE LEITURA NO FINAL DA APOSTILA IMPRESSA.


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