RUMORES DA CASA ROSA
Concorda? “O intelectual é um homem que diz uma coisa simples
de maneira difícil; um sábio é um homem que diz uma coisa difícil de maneira
simples”. (Charles Bucowski).
A sábia família Mattos chegou em Capivari em 1949 com alguns
filhos. O jovem casal Carlos e Virginia escolhera Capivari para lecionar
filosofia e cria-los com outros que nasceram aqui. Capivari teve sorte, pois um
filósofo é importante na sociedade pela clareza no entendimento da realidade
para distinguir entre certo/errado, bom, justo, coisas concretas/abstratas. O
conceito remonta ao filósofo grego Pitágoras (VI a.C.), citado pelos antigos
como o inventor da palavra. É quem ama a sabedoria, movido pela consciência
lúcida da ignorância inerente à condição humana.
“Todos que tiverem
oportunidade, devem estudar filosofia para aprender a pensar de forma ordenada,
entender os mistérios da vida”, disse-me o altivo Carlos Lopes de Mattos com
dedo em riste e testa franzida de quem inventava o mundo falando. Capivari teve
nesse ilustre filósofo e professor de filosofia uma oportunidade impar de
entrar no mapa do conhecimento. Tudo isso mantem-se firme no ultimo endereço em
que ele viveu, através dos seus discípulos, discípulos de sua musa inspiradora
dona Virginia Mattos, igualmente brilhante. Como também seus oito filhos, feito
satélites retransmitindo aquela experiência familiar cristã fundamentada na
cultura e na educação.
Toda ação humana é
precedida por uma elucubração mental. A
filosofia é um fio condutor do comportamento que a sociedade muitas vezes nem
percebe. Pensar é fundamental, a maioria das pessoas pensa automaticamente, mas
pensa.
Generosos os Mattos abriram o ponto de cultura “Casa
Rosa_Memorial Virginia e Carlos Mattos” sob direção da brilhante Dani Canto,
filha de Cida Bresciani com Roni do Canto. Finalidade: democratizar o
conhecimento, difundir a cultura iniciando por eternizar personalidades como o
patriarca deles nos ensaios “A COISA EM SI”. A filha Maria Augusta Mattos cedeu
um link no qual podemos encontrar Tarsilla do Amaral, Padre Eusébio, Rodrigues
de Abreu e muitos outros, cuja pesquisa convém sugerir que continue ad eternum.
Na casa rosa sempre aconteceu de tudo em educação, cultura,
política, análises, publicações e rodas de conversas sobre cidadania. O dr
Carlos escrevia nos jornais daqui, inclusive no JCR. Naquele tempo eu mesmo ia
de bicicleta buscar os artigos e lia todos com seus autores, especialmente seu
João Campagnolli, prof. José de Almeida, pe Eusébio e dr. Carlos. Tive centenas
de oportunidades de perguntar para ele sobre muita coisa que o deixava curioso
sobre meu nível de interesse pelo conhecimento. Ali, muito antes do seminário,
me apresentou os grandes autores, quase sempre todos da
Grécia/Alemanha/Áustria/Roma/Paris.
Ah Paris! Nenhuma viagem à Paris é completa sem algumas horas
passadas num dos seus famosos cafés, para fazer o que os parisienses mais
gostam: ver a vida passar! A Casa Rosa nos transfere para a Paris do
pensamento, da articulação, da leveza de uma vida sem pressa, da
intelectualidade, da arte. Nenhuma das vezes em que pisei em solo parisiense
deixei de lembrar das mãos marianas de dona Virginia servindo aquelas delicias
para os convivas enquanto, calado, o marido não tirava o olho nem os ouvidos de
ninguém. Era a cara de Paris; uma vez, no café Angelina da rue de Rivoli, entre um vinho e outro o apresentador Zeca
Camargo babou me ouvindo falar do café Virginia.
Que as próximas
gerações aproveitem o denso trabalho do icone Carlos Lopes de Mattos, que valorizou
grandes autores como Farias Brito. Um tributo emocionado com respeito pelo que
fez em prol das ideias filosóficas brasileiras. Homem singular, saiu do Brasil
para estudar filosofia na famosa e tradicional Universidade de Louvenne,
Bélgica. Sua bibliografia impressiona com as valiosas traduções de Leibntz, que faz parte da
Coleção Os Pensadores.
Um seminarista para ser ordenado padre precisa estudar quatro
anos de teologia e antes pelo menos três da filosofia do grego Aristoteles
repaginada por São Tomás de Aquino, na qual Carlos Lopes de Mattos era doutor.
Como houve na historia muitos filósofos agnósticos e ateus, ele não só educou
os filhos na fé católica, como dedicou
sua vida a ajudar a Igreja diante do
negacionismo. Foi seu principal objetivo restaurar a filosofia tradicional de
caráter espiritualista e fundar uma
crítica radical ao pensamento positivista que negava a existência do espírito.
Na "História das Ideias Filosóficas no Brasil"
Antonio Paim o menciona como “valioso crítico e comentador da presença dos
beneditinos brasileiros nos séculos XVII e XVIII. Há muito ainda para falar
desse ilustre filho adotivo de Capivari e de sua família. Vamos à casa rosa?


0 Comentários